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sexta-feira, 8 de abril de 2011

Herbert quer um salário maior

Por incrível que pareça, essa história é verdadeira

Herbert era um cara dedicado. Corria atrás das coisas com vontade e estava sempre em busca de um salário decente. Ele recebia na empresa que trabalhava em torno de 1000 reais pelo seu suado trabalho de marketing. Pode não parecer, mas o marketing faz suar. Profissionais de marketing geralmente trabalham ligados no 220v, não almoçam e muitas vezes não dormem. Não é a área mais saudável de trabalho. Por exemplo o cultivo de batatas, oferece muito mais tranquilidade e longevidade do que o marketing.

Mas Herbert havia caído ali meio que de pára-quedas, e foi aprendendo e fazendo bem seu trabalho. Herbert trabalhava muito bem, na verdade. Era um profissional de pensamento rápido e idéias inteligentes. Foi assim que ele conseguiu seu tão glorioso salário de 4 dígitos - ainda que fosse o menor possível dentro deste seleto grupo.

Eis que um dia Herbert foi chamado pra uma entrevista. A entrevista era numa empresa de Rh terceirizada. Empresas grandes costumam tercerizar seus RHs para não terem o trabalho de entrevistar muitas pessoas. Herbert não gostava desse tipo de processo seletivo, pois, geralmente, envolviam várias etapadas que iam desde dinâmicas de imitação de macacos à testes psicotécnicos práticos. Todos, é claro, em dias diferentes e em horários terríveis para quem já está trabalhando. Resolveu então deixar o dinheiro falar mais alto: "Quanto paga?". A resposta foi um sonoro, ecoante e emocionante: "2... Mil... reais!". Resolveu então apostar na entrevista. Marcou no horário mais cedo possível, assim poderia ir correndo pro trabalho depois. Certamente chegaria alguns minutos atrasado, mas uma boa desculpa como: "minha carteira caiu no bueiro" ou "acordei com dor de barriga" resolveria tudo.

Foi na entrevista e foi bem. A moça do RH terceirizado até o elogiou. Pediu então pra ele retornar outro dia para a próxima fase. Após aquela, disse ela, ele iria para a final, direto na empresa. Saiu de lá e correu para o trabalho. Chegou em torno de 30 minutos atrasado. A desculpa da carteira pareceu convencer seu chefe que deu uma risadinha de alívio como quem dizia: "ainda bem que não foi comigo".

Na etapa seguinte, Herbert foi bem novamente. Saiu de lá e pegou um táxi para chegar no trabalho. A corrida saiu em torno de R$30. Uma conta inesperadamente pesada pra quem vive com a bagatela de mil reais por mês. Tudo bem, ele pensava, quando eu dobrar meu patrimônio para dois mil reais, poderei pegar quantos táxis eu quiser. Alguns dias depois a moça do RH ligou novamente. Dessa vez ela marcou sua proxima entrevista diretamente na empresa. Segundo ela, era a fase final. Depois daquilo seria só alegria. Herbert mal pode esperar.

Quando chegou na empresa, com 20 minutos de antecedencia, aproveitou pra observar o prédio monumental onde a empresa estava instalada. Trabalhar ali devia ser coisa pra poucos. Mas Herbert era bom. Sabia disso ao olhar-se no espelho do elevador e dar um sorriso para si próprio. Logo usaria aquele elevador todos os dias. Ao entrar na empresa, foi recebido por uma garota que apresentou-se como sendo o RH da empresa. Pediu para ele preencher umas fichas, escrever 2 ou três redações com o tema: "Por que quero trabalhar aqui" ou "Quão grande é o universo" e logo depois o entrevistou. Durante a entrevista, a garota informou - para a tristeza de Herbert - que ainda haveriam mais 2 etapas. Tudo bem. O salário compensava as etapas burocráticas e as redações filosóficas. Quando tudo parecia perfeito, a garota fez a pergunta marcante: "Qual sua pretensão salarial?". Herbert achou estranho, mas disse o mesmo que sabia estar combinado desde o começo: "2 mil reais". A expressão da garota revelou um pensamento do tipo: "Não é bem assim que as coisas funcionam" enquanto ela se preparava para dizer: "Está um pouco acima do que pretendemos pagar. Nossa vaga é para um salário de oitocentos reais".



A garota ainda tentou convence-lo à ficar para a dinâmica, ou ao menos para tomar um cafézinho por conta da empresa, mas Herbert a partir daquele momento não conseguia raciocinar corretamente. Tudo em que ele acreditava estava desmoronando junto com todo seu tempo perdido e salários promissores.

E assim ele voltou correndo pro trabalho...

terça-feira, 20 de julho de 2010

Fernando, o Estagiário em: O Veredito Final

Por incrível que pareça, essa história é verdadeira

Estava sol e a hora do almoço se aproximava dando continuidade à um dia bastante agradável. O céu estava azul, fazia um calor gostoso e Fernando acabara de receber uma ótima notícia. Enquanto ele voltava do almoço, seu celular tocou e era uma moça de RH. É sempre bom receber ligações de moças do RH, porque ou elas te chamam pra fazer uma entrevista ou te ligam pra avisar que você foi contratado. Caso contrário elas nunca ligam. Nunca. Mesmo quando avisam, quando juram de pés juntos que te darão um retorno positivo ou negativo - e elas dão uma certa ênfase à esse "negativo" - mesmo assim engana-se quem fica na espera. Fernando não ficava, pois já estava acostumado aos silenciosos pés-na-bunda causador pelo RH. Uma vez uma certa alma boa lhe enviou um e-mail dizendo que ele havia sido recusado. Fernando nunca se esqueceu desse ato nobre único. Mas nessa história a ligação trouxe a notícia de que Fernando havia passado na dinâmica de grupos e havia sido qualificado para a etapa final do processo seletivo. Fernando se sentiu muito bem com a notícia. Quem não gosta de ser aprovado numa dinâmica, mesmo que ninguém jamais entenda pra quê cazzo que elas servem?

Fernando retornou ao seu local de estágio com um sorriso no rosto. Ele trabalhava lá havia 4 meses, porém ganhava muito pouco. Estagiários ganham mal por natureza, mas "capricharam" no salário de Fernando. Não pega nem bem citá-lo nessa história. Mas agora tudo seria melhor. Fernando já havia passado pela entrevista inicial com a empresa consultora em RH, e depois, na dinâmica de grupos (que envolvia pelo menos 30 pessoas) havia obtido sucesso novamente. O pior já foi e ele sabia disso. Agora seria tudo mais fácil. Ele seria entrevistado por um profissional da mesma área, um designer gráfico de verdade, que pensava como ele, que tinha imaginação e disposição como ele. Fernando mal podia esperar pela entrevista. Terminou o dia de trabalho no escritório, chegou em casa e caprichou no portfólio. Separou os melhores trabalhos, a melhor roupa e preparou tudo para o horário certo do dia seguinte. Diria no estágio que chegaria alguns minutos atrasado, pegaria o metrô a duas quadras de sua casa, direto pro local e então tudo de bom lhe aguardava: um salário melhor, e benefícios maravilhosos jamais sonhados para estagiários como vale transporte e vale refeição.

Falando em metrô, Fernando iria trabalhar em um órgão público! Olhe só que chique. Isso mesmo, a entrevista era para fazer parte da equipe de designers de um órgão do governo de São Paulo. Era um estágio, mas ainda assim tinha muita glória.

No dia seguinte, mais um dia de sol e Fernando chegou ao local com meia hora de antecedência. É pedido que ele aguarde na recepção. Enquanto espera aparecem mais candidatos - aqueles que passaram na dinâmica também, observa ele. No total chegaram mais 4 garotos, nenhum deles era o tipo "Sabe-tudo-que-vai-pegar-a-vaga", para a alegria de Fernando. Apesar dos outros rapazes serem muito legais, ele estava confiante em si próprio. Se uma dinâmica envolvendo mímica e jogo-da-velha de olhos vendados não o parou, nada mais pararia.

Após 1 hora de espera, o que não significa absolutamente nada na vida de estagiários, quanto mais a aspirantes a estagiários, os cinco jovens designers foram chamados. Ao entrarem na sala uma mulher por volta de seus 50 anos dita as regras, curta e grosa: "Olá, temos apenas uma vaga. Para trabalhar efetivamente aqui, apenas com concurso público. Não se animem, pois o contrato é de 6 meses apenas sem chances de efeticação". Não é preciso dizer que Fernando e todos os concorrentes-amigos não gostaram muito de ouvir aquilo, mas logo ela compensou um pouco: "Além da bolsa auxílio, o estagiário terá passe livre pelo metrô e vale refeição. O expediente é de 6 horas". Pronto, agora sim, pensou Fernando, trabalhar 2 horas a menos e dobrar o patrimônio, isso sim era um belo salto em sua curta carreira até então. A moça do RH finalizou: "Peço que preencham essa ficha e me entreguem junto aos seus currículuns" e saiu da sala em seguida.

Fernando preencheu todos os dados e até caprichou na letra. Não queria estragar nada. No local onde perguntava o tipo de condução utilizada sentiu orgulho ao citar que precisaria de apenas um tíquete de metrô. Tudo para facilitar e disponibilizar o quanto antes suas habilidades aos selecionadores.

Passados 5 minutos a mulher entrou na sala, recolheu as fichas e disse: "Agora peço que saiam pois vou avaliar alguns dados aqui. De vocês, selecionarei apenas 3 para a entrevista".
Epa, aquilo estava começando a cheirar mal. Na tão agraciada ligação por telefone, a moça do RH havia sido clara em informar que aquela seria, de fato, a entrevista final. Como assim selecionar apenas 3? "Viemos aqui pra preencher uma ficha?", perguntou-se Fernando, impotente. Decidiu não se estressar com isso e passou os 5 minutos aproveitando o luxo de uma máquina de café gratuita, coisa inimiginável no mundo em que estava acostumado.

A senhora então chamou-os para entrar. Entraram os cinco meio sem-jeito e sentaram-se. "Roberto?", disse a moça. Todos ficaram imóveis, o Roberto e os não-Roberto. Todos aguardando o pior. "Você esqueceu de me entregar o currículum quando solciitei...". O tal do Roberto apressou-se a entregar a folha com um inaudível "Desculpe" de brinde. O silêncio permaneceu total por mais 10 segundos. 10 longos segundos de tensão e suor frio. Até que a senhora quebrou o silêncio novamente dizendo: "Paulo..." Todos ficaram duros novamente aguardando o pior. E agora? Mais um aviso? Ele foi selecionado? Foi descartado? Ela então continuou: "e Fernando...". "Ai meu Deus!", pensou Fernando, "Fudeu! É agora... ou vai nos escolher ou nos mandar pra fora. O que eu faço? O que será de mim?". Esse e mais outros 32 pensamentos passaram pela cabeça do pobre garoto no intervalo de 4 segundos - prova substancial de que os estagiários pensam muito rápido - até a senhora completar: "Vocês foram excluídos devido à questões de localidade. Obrigado e podem se retirar".

Fernando ficou sem palavras. Foi como um relâmpago na cabeça. Não conseguiu nem mandar aquele patético: "Como assim?" que não resolveria nada de qualquer forma. Caminhou pelos corredores para fora da empresa sem conseguir esboçar uma expressão facial definida. Estava dividido entre o ódio mortal e a indignação. Essa mistura de emoções provocou uma involuntária desatenção completa contra tudo a sua volta. Não viu quando os outros dois também desafortundados se desviaram no caminho silencioso e enfadonho. Fernando não conseguiu pensar em nada até chegar ao trabalho. Não conseguiu pensar no grande papel indigno de realmente ter ido até ali "apenas para preencher uma ficha", como havia colocado antes. Nem conseguiu pensar que a questão da localidade poderia ter sido resolvida antes mesmo da seleção dos curriculuns. Nem que ele havia passado por 2 etapas que realmente exigiram algo dele, sendo uma delas uma terrível dinâmica. E o mais importante, não conseguiu lembrar nem que morava a duas quadras da estação do metrô.

Quando recuperou a lucidez, alguns dias depois, achou a respota óbvia que trazia sentido praquele episódio bizarro: "Era uma vaga de estágio..."

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Ubiratam

Texto de Caio Guilherme, originalmente publicado no blog Blues Literário, reproduzido aqui com permissão do autor.

Hoje eu acordei cedo. Um pouco antes do telefone tocar. Não, não é meu telefone que toca. O telefone é de Ubiratam e está tocando às 08h20min. Eu acordei um pouco antes disso, mas devo concordar com Ubiratam, é cedo demais. A pessoa do outro lado da linha, consultora de Rh, não se importa se Ubiratam está ou não dormindo, se ele quiser um emprego terá de acordar e atender sem nenhum embargo na garganta. E é isso que ele faz.

Submisso ele escuta dizeres em tom imperativo. Esteja lá às 10 horas para o cliente te entrevistar. Tome um banho, imprima um currículo e use roupas sociais, vá bem vestido. Nosso herói não possui roupas em sua melhor forma. As velhas camisas, herdadas do pai e do irmão mais velho, estão encardidas, amassadas e puídas, mas Ubiratam toma uma para si e a veste. A calça mal cabe e possui vincos que dariam inveja a Cordilheira dos Andes. Não há tempo de tomar café da manhã ou qualquer outra coisa, ele está redondamente atrasado e terá de torcer para que o ônibus e o trânsito de sua cidade colabore.
Despreocupado vejo Ubiratam correr atrás do ônibus. Não sou eu e nem a mocinha do Rh, que esqueceu de ligar para ele no dia anterior, quem necessita desse emprego. Quem precisa vender 8 horas do seu dia por R$ 400 é ele. Ao subir no ônibus sua camisa manifesta grandiosas e oceânicas manchas de suor. Este secará no contato abusivo e forçado com os outros corpos na lata de sardinha. O resultado, uma camisa mal seca e amarrotada.
10 horas e 15 minutos, Ubiratam chega no escritório do cliente. Um lugar limpo, higiênico e esterilizado. Um bom lugar para trabalhar, uma firma de advogados. Atrasado ele recebe uma bronca da recepcionista. 5 minutos antes a própria mocinha do Rh ligara para reclamar do atraso dele e o ameaçara dizendo que isso não se fazia, que aquilo poderia prejudicar a empresa e ela mesma. Que, ao contrário do tempo dele, o tempo do cliente valia ouro e brilhava com oportunidades. Caso houvesse outra chance, e ela deixou bem claro seu pessimismo quanto a possibilidade do mundo de trabalho se interessar por Ubiratam, ele não deveria mais se atrasar tanto. Entrou pelo corredor que a recepcionista lhe indicou, de forma indiferente, depois da bronca. Nele um punhado de sujeitos, irmãos de Ubiratam, feitos na mesma forma de Ubiratam, vários Ubiratans em versões não tão variadas, esperavam desde às 9 horas e 30 minutos. O atraso, pelo qual fora tão censurado, de nada valia e em nada atrapalhava a rotina importante do cliente, da famosa e grandiosa firma de advocacia, estéril e cujos segundos valem ouro.

Uma porta é aberta. Todos são chamados para entrar. Dinâmica de grupo. Um adesivo é colocado nas costas de Ubiratam e ele tem de fazer perguntas, cujas respostas podem ser somente sim ou não, para tentar descobrir quem ele é. Quando o adesivo em suas costas, colocado por uma senhora do Rh, lhe disser quem ele é, ele devera sê-lo em frente a todos ooutros. Devera imitar a “si mesmo” para, dessa forma, ser avaliado. Um não pode sabotar o outro, são todos concorrentes, mas todos devem trabalhar em equipe para que somente um, o tão sortudo um, consiga a vaga. Desse monte de Ubiratans em competição e colaboração pela vaga, só o mais perfeito deles conseguirá ganhar os R$ 400 mensais e, com sorte, substituir parte de suas camisas amassadas, encardidas e puídas.

Nosso Ubiratam questiona para um dos seus irmãos:

“Eu sou um homem?”

“Não, não é.”

“Uma mulher?”

“Não.”

“Eu não sou gente, então?”

“Não.”

“Como? Não, eu não sou gente ou sim, você não é gente? ”

“Não.”

“Explica melhor. Eu sou ou não sou?”

“Você não é.”

“Sou um objeto?”

“Não, não é.”

“Um animal?”

“Sim, você é um animal.”

“E o que eu como?”

“Não.”

“Como eu não como?”

A senhora do Rh intervém no brilhante interrogatório de Ubiratam:

“Não se esqueça que as resposta só podem ser sim e não. Ao invés de perguntar o que você come, chute o que você come, entendeu?”

Ubiratam demorou alguns segundos para responder que sim. Esse monte de afirmações, negações, sugestões, Ubiratans e ordens, estavam lhe enlouquecendo.

“Eu como batata?”

“Não sei.”

“Eu como carne?”

“Não, acho que não.”

“Frutas?”

“Sim.”

“Qual?”

“Ele não pode te responder isso. Esqueceu?” – Interveio novamente a senhora do Rh. Ubiratam balançou afirmativamente a cabeça e pediu desculpas encabuladas. O oceano de suor, extinto no ônibus, voltava a brotar de seus poros e já causava algumas desagradáveis manchas debaixo dos braços.

Cansado daquela brincadeira estúpida, Ubiratam chutou:

“Eu como bananas?”

“Sim, você come bananas.”

“Eu sou um macaco?”

“Sim, você acertou.”

A senhora do Rh entusiasmadamente aplaudiu nosso Ubiratam. Entre todos os outros, ele foi o primeiro a se descobrir. Ela chamou a atenção de todos e ordenou que Ubiratam desse seqüência no teste.

Envergonhado, o primeiro dentre todos eles, imitou a si mesmo, imitou aquilo que a senhora do RH disse que ele era: um macaco.

Pulos e gritos, coçadas de cabeça. Empenhado, ele se lembrou de todos os desenhos com macacos e os imitou muito bem. Todos, inclusive a senhora do Rh, riram. Ele não gostou daquilo. Passado este teste, foi encaminhado para uma outra sala. Nela perguntas sobre seu mal feito ensino fundamental, suas árduas tarefas anteriores e irrealizáveis sonhos foram feitas. Nessa última pergunta, Ubiratam não conseguiu apresentar respostas claras. Objetivos de vida. Seqüência estranha de palavras. Não sabia que precisava ter sonhos e esperanças para digitar documentos na firma de advogados. Devem ser documentos realmente fantásticos para poderem ser só respondidos por alguém com objetivos e possibilidades. Ubiratam ganhou um sonho nesse dia: ser alguém com sonhos e grandes esperanças. O dia mais feliz de sua vida seria aquele em que poderia sonhar.

A entrevista terminou e Ubiratam foi para casa. Pensou em comprar uma coxinha num bar perto do escritório, mas não tinha dinheiro. A comida naquele bairro era muito cara. Foi para casa e atendeu eu telefone logo que chegou. A mocinha do Rh, aquela da primeira ligação, lhe disse que, como ela previra, Ubiratam não passou. Não soube bem imitar um macaco, um simples macaco. Ubiratam se envergonhou e chorou ao desligar o telefone. Era humilhação demais para viver. Ligou a Tv e passou as próximas horas vendo desenhos e filmes com macacos, iria aprender. Nem jantou naquele dia.

Nunca mais segui um dia de Ubiratam em minha vida. Nem sei qual dos vários e não tão variáveis e anônimos Ubiratans conseguiu a vaga. Só sei, caro Ubiratam, – e esse finzinho digo para você e só para você - que imitar macacos é realmente muito difícil, não se sinta mal. Aposto que, assim como você, muitos daqueles seus concorrentes não conseguiram imitar aquilo que a Senhora do Rh disse que eram. A vida é assim mesmo, cheia de confusão e perguntas estranhas. Os ônibus lotados vão e voltam cheios de trabalhadores, alguns trabalhando e outros lutando por seu lugar ao sol, gritando como macacos em mil e uma entrevistas de empregos, inventando sonhos e esperanças para passar nas entrevistas. Não tenhas dúvidas, meu amigo Ubiratam, uma hora ou outra, sua vez nesses lotados ônibus irá chegar e você terá seu lugar sob o ardente sol do meio dia.